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Minha avó judia

Luciano Lima de Oliveira



Mas uma sutileza, um mistério permeiam a alma judia.
Pois não é que mesmo distante desse assunto-insidência do acaso?-minha colega de trabalho, que neste dia contemplava os objetos do meu birô, e que realmente se tratavam de enfeites de procedência oriental, fez-me a pergunta que em poucos instantes me transportaria para uma pátria longínqua, para um orgulho resguardado com receio, para uma alma cândida: minha avó judia. Na realidade eu era impelido lentamente, e não tinha nenhum poder de resistência-a veladas lembranças de um outro tempo; um tempo bom e que para todos só é possível de ser meditado na mais profunda solidão: minha infância ou vestígios de lembrança.
Na cadeira de balaço, rente à sala de jantar, beirando por sua vez o umbral da cozinha-frente a piazinha de lavar as mãos, rigorosamente acolchoada-estava sentada uma senhora que por essa época de minha infância, deveria ter os seus setenta e cinco anos de idade.Era branca, baixinha, tinha o nariz delgado e comprido e olhos muito lânguidos. A sala onde estava era de uma claridade de cegar olhos. Meio sobrenatural meio natural ela dava uns balanceios na cadeira como se estivesse suspensa no ar.O vestidinho, ainda me lembro, azul com bolinhas, bordados e anáguas ainda mais a caracterizava como àquilo que toda família já sabia.
Mas era naquele cantinho que nos domingos-pois somente nos domingos-a visitávamos-ela, como incontáveis chavinhas nos bolsos, ia até o pequeno armário de cedro ao lado da cadeirinha e de lá, acocorada, saia com os mais diversos sonhos que não vou mentir-faziam-me regressar todos os domingos-e não é que eu fosse um interesseiro aproveitador de vovozinha; sabe como é, não é? Criança...- esses sonhos eram doces, biscoitos e salgados dos mais diversos tipos e sabores feitos por ela. Não me lembro de os ter visto em nenhum outro lugar. Na verdade eram receitas de família que se estendiam de geração a geração. Em todo caso, não havia muito comentário na família, visto que vovô não compartilhava das tradições de vovó. Vovô, ainda mesmo nesta época em que o conheci, tinha um poste majestoso em comparação a vovó. Era alto, moreno cor de canela, cabeleira longa e negra; carregava consigo uma autoridade nata; um patriarcalismo ferrenho de quem pouco pede, e sim manda; mandar transparecia em seu rosto, aliás, belo rosto de hindu.
Mas as tradições nunca seriam subjugadas e esquecidas pelos membros de minha família, pois vovó-judia de sangue-pai e mãe judeus-aos filhos mesmo daria o legitimo direito de também serem descendentes diretos de Abraão, uma vez que assim diz a lei que filhos de mãe judia, embora de pai cristão- são judeus de tradição e sangue. Fato esse não ocorria se tratasse de pai judeu.Logo papai e titios teriam a opção de escolher entre a ascendência hebraica e brasileira. Com isso, como já se previa, acabou gerando uma misturada só de religião na família.Os que seguiram as tradições de vovó (esses foram constantes), instruíam-se sob os preceitos da Torá e do Talmud; já os que seguiram os de vovô (esses em sua grande maioria fraquejaram; se desligaram do catolicismo e adotaram outros credos , seitas e religiões. Hoje muitos são espíritas, hinduístas, budistas, místicos e até mesmo ateus convictos, embora não se deva levar à serio essa justificação). Os que seguiram os preceitos de vovó seguiam, ou seguem, os ensinamentos práticos do Talmud, ou seja, guardam o shabat, sabem o que comer, o que beber, o que ler e como rezar etc; mais ainda, como na cidade não havia uma comunidade judia e levando em consideração que o pequeno número deles aqui existentes não constituiria preceito para a criação de uma sinagoga e mais além a vinda de um rabino definitivo -no próprio quarto de vovó é que era colocada a mezuzá. Lá era reunida a família e entoado os principais cânticos. No final colocavam uma pequena mesa e serviam a ceia do shabat; tudo entre família. Vovô, esse não sei se concordava, porém por manter o preceito cristão com pouca tenacidade, acabava se tornando indiferente e até certo ponto tolerante. Era naquele quarto de cheiro estranho, de organização estranha que eu começava a inventar, a me perguntar pelo significado daquele candelabro de sete velas, daquele chifre de boi, daquele vinho, daquelas cortinas que encobriam o altar, daquelas poucas cadeiras que se separavam ao fundo do quarto. Pouco a pouco foram me explicando o significado de cada símbolo, a verdade de cada elemento posto na mesinha. Nada ali era por acaso, nem mesmo a posição de uma cadeira. Mas eu já ia me esquecendo de contar, na tradição judaica as mulheres têm importância subalterna nas reuniões do shabat; não podem por sua vez ministrar os ensinamentos da Torá. E a quem então imbuiriam tal ofício? Sim, claro, o filho mais velho. E esse era um estudioso assíduo da Tora. Já havia até tido contato com o fervoroso grupo judaico da sinagoga de Manaus -passara dois anos por lá aprimorando os conhecimentos-logo levaria a cabo os ensinamentos de vovó que, embora distante, também os proferiam. Idem..
Certo dia, por essas horas, lá cheguei acompanhado de papai. Organizavam os preparativos para a festa de shavout (pentecostes) uma das mais importantes da tradição.Vovó que neste dia estava mais bela do que nos outros dias-na cozinha preparava a ceia que hoje seria também oferecida a um amigo antigo dos pais dela, o Sr. Kaufman. Esse senhor tinha uma grande barbicha e uma espessa barba branca. Trajava-se impecavelmente como judeu, isto é, chapéu-de-abas, terno escuro, quando tirava o chapéu, colocava logo a kipá. Era muito gentil e inteligente. Vez ou dava um risinho meio infantil. Vovô muito se interessava com as historias contadas por ele. Indagavam-se demasiadamente. Vovô adorava novidades. Era na verdade um intelectual aberto para o conhecimento de outras culturas. Se não fosse dessa forma, não teria se casado com vovó, pois os pais dela eram muito mais judeus do que ela; pouco falavam o português.Quando aqui chegaram, em meados da Primeira Guerra Mundial, primeiramente desembarcaram no Recife.Porém como o Recife em nada os agradasse, preferiram tomar um navio e subir até o norte-Manaus - Pela foz do Rio Amazonas-chegando lá procurariam emprego e morada. Iriam com a certeza de que lá teriam amparo da enriquecida comunidade judaica que prosperava mais e mais a cada dia em virtude da exportação da borracha. Porém o navio que os levaria à Manaus aportou para alguns ajustes no porto ainda em construção de Fortaleza. E lá no cais, meu bisavô Samuel Schimdt, reconheceu um velho amigo de outros tempos-das terras alemãs-o Sr. Jacob Levi. Esse senhor, pequeno comerciante desta cidade, fizera uma proposta a meu bisavô: ambos formariam uma sociedade comercial. Como meu bisavô Samuel tinha algum recurso e muita habilidade para os negócios, aceitara deveras pronto a proposta do amigo. Formaram a sociedade e logo o comercio começou a funcionar no Centro velho da cidade.Ali, na hoje rua Senado Pompeu, onde há uma igreja e uma casinha azulada, foi que funcionou a Loja Sincera-de propriedade de Samuel e Jacob, os judeus. No lugar onde antes era a loja, hoje está a pequena igrejinha. A casa ainda resiste imponente-mas não sei por quanto tempo. Um dia desses fui lá e fiquei horas contemplando. Nessa casa hoje funciona uma espécie de associação espiritual ou acompanhamento espiritual. Não sei bem o nome. Se alguém se interessar em conhecer, deixo o endereço abaixo registrado (*).
Mas voltando a festa de shavout, ao Sr Kaufman... Vovó se entretendo com os preparativos da festa... O Sr. Kaufman conversando com vovô... Minhas tias acompanhado vovó na cozinha... Meus tios no pátio conversando com os amigos... Tudo transcorria a minha volta; o tempo corria indiferente. Criança, mente fértil que eu era, enchia-me de um estupor horrível ao contrapor àquelas novidades.
Só quando eu cresci foi que tudo se foi me explicando; que tudo foi me enchendo de uma claridade como que vinda de um foco de luz desconhecido.Era na verdade a revelação, a minha revelação daquela família.
Agora eu entendia o porquê da disposição daquelas cadeiras (as mulheres devem ficar separadas dos homens na hora do ritual), o nome daquele candelabro (menorah), daquele chifre de boi, daquele vinho, daquele cortinado que escondia um altar, da nobreza resguardada de vovó; sim, de seus olhos lânguidos; olhos lânguidos de judia (característica da raça; e eu que desses olhos tenho, embora a genética de minha mãe em mim seja mais acentuada), daquelas estranhas palavras proferidas. Agora entendo: ela se resguardava, restringia-nos o shabat porque o direito da ascendência judaica em nós já não vingava. Sim, ela se mostrava em todo caso aos netinhos como a vovó velhinha, piedosa, católica e que gostava de dar biscoitos às crianças no domingo. Essa restrição também se estendia aos genros, noras, marido e a qualquer outro sem vinculo de sangue judaico com a família.
Hoje bem compreendo isso tudo, porém não perdôo a frustração de não ter nascido judeu por direito de sangue. E por não perdoar vovó, titios, papai -antes pois gostaria de lhes dizer que me considero mais judeu do que vocês, pois mais do que ser judeu de sangue, é ser judeu de coração. E ainda para calar todas as bocas e não te perdoar de fato, vovó, não só assino meu nome com teu sobrenome Schimidt como também-embora necessitando todas as vezes da colaboração de três membros da sociedade-assisto o shabat na sinagoga todas as sextas-feiras quando me é possível.

P.S. Vovó faleceu em 1990 e vovô em 1998. Depois da morte de vovó a tradição foi pouco a pouco perdendo a importância de outrora, embora com muita gana de alguns membros ainda resista.

(*) Rua Senador Pompeu, 1206- Centro/ Fortaleza-CE.

Este artículo tiene © del autor.

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